Moçambique (Memba – Nacala)

 

Acordei sem grande vontade de partir para Nacala. Preferia ficar mais um dia na pacata vila de Memba, no entanto tal não era viável por questões burocráticas e que se prendiam com a extensão do Visto.

Ao que suponha, os vistos só eram renovados nas capitais de distrito. No meu caso a capital de distrito mais próxima era Nampula. Eu estava a quatro dias de viagem de Nampula, sem contar com os dias que iria gastar em Nacala para reparar o aro da bicicleta e os dias que passaria a visitar a Ilha de Moçambique. Restavam-me apenas 8 dias de calendário para o meu Visto actual caducar.

DSCF6653 Pelo segundo dia consecutivo, tinha o meu pequeno-almoço preparado à hora solicitada.

Não era mais que duas sandes de ovo, aconchegadas com a papa Cerelac que comprara no dia anterior e regadas com uma chávena de café instantâneo.

 

 

Despedi-me do aprendiz de mecânico de bicicletas, que acumulava as funções de recepcionista e empregado de limpeza da Pensão Jovi, às 7h15.

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Antes de dar inicio à etapa do dia, desloquei-me ao estabelecimento onde jantara na noite anterior. O filho do dono do restaurante prometera-me uma litrada bem fresca de sumo natural de papaia e manga para a minha viagem até Nacala.

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20 Minutos depois, dava a primeira pedalada da jornada. Saí de Memba pela “porta da frente”, através de uma via pavimentada com pedra da região. Apesar do aspecto pitoresco, esta não era de certeza a via perfeita para um ciclista. Para uma viatura de quatros rodas não haveria qualquer tipo de incómodo. Todavia para uma bicicleta carregada de tralha, as muitas trepidações eram bastante penosas, ao ponto de parecer que o velocípede ia partir-se em dois.

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Até ao destino teria pela frente cerca de 82Kms, dos quais apenas os últimos 28Kms seriam asfaltados.

Ao que apurei a estrada continha algumas subidas, o que levou-me a estimar umas 6 horas de viagem até ao destino.

 

 

Muito provavelmente estaria em Nacala antes das 14h00, o que me possibilitava a procura de uma oficina na zona portuária da cidade, onde pudesse reparar o aro da bicicleta.

A estrada melhorara bastante, quando comparada com a estrada dos dias anteriores.

O céu estava limpo e a temperatura agradável. O vento concedia-me algumas tréguas permitindo-me circular sem grandes dificuldades nas primeiras horas da manhã. Ao longe conseguia avistar as montanhas que iria atravessar. Nada de extraordinário, mas que obrigar-me-iam a depositar um esforço extra nos pedais da bicicleta.

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Havia nesta via rodoviária algo que já não via há 3 dias. Trânsito motorizado. Era relativamente frequente cruzar-me com motorizadas e por vezes com carrinhas de caixa aberta (tipo 3tons), que passavam por mim a toda a velocidade sem terem o mínimo cuidado com o pó que levantavam.

Parecia que os motoristas conduziam as carrinhas, carregados de insipiência acerca dos limites de segurança da condução praticada. Além que se divertiam a ver quem me passava a melhor tangente.

O céu estava azul, o vento não estava forte, a temperatura estava agradável… em suma, o dia estava bonito … O que levou-me a não enfiar com um calhau no pára-brisas do próximo motorista que apontasse a sua carrinha de caixa aberta, à minha roda da frente.

Devido aos pequenos montes e vales, apenas ocasionalmente é que chocava de frente com o vento. No entanto quando este resolvia aparecer, fazia-se notar com uma forte intensidade, forçando a roda dianteira a gingar e perturbando-me o equilíbrio.

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Avançava a uma velocidade ligeiramente inferior ao previsto. A velocidade média rondava os 13Km/h, mas ainda não era motivo para preocupações. A intenção de chagar a Nacala pouco depois da hora do almoço era totalmente praticável. Eram as 9h25 e faltavam apenas 58Kms até ao destino.

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A mente facilmente evadia-se da realidade, concentrando-se nos itinerários possíveis após Nacala. Eu queria continuar por estradas terciárias, entre povoações remotas, junto ao Oceano e onde cada dia era uma aventura diferente. Mas o estado da minha roda traseira não me permitia grandes aventuras, por lugares menos acessíveis ou de maior dureza.

DSCF6665Quando voltava da evasão mental, reparava que o iPod vinha a debitar melodias. As mesmas melodias gastas, que eu ouvia desde Luanda e que já conhecia de cor.

Nada melhor que um ligeiro vazio estomacal para me manter neste planeta e procurar encontrar entre as várias cubatas espalhadas ao longo da estrada, uma esteira com um punhado de bananas para venda.

Cinco minutos depois das onze da manhã, avistei Nacala-Porto do outro lado da baía. Apesar de a cidade estar longe, conseguia ver a zona portuária e alguns edifícios de maior estatura. Estaria a chegar a uma grande cidade, onde muito provavelmente iria encontrar solução para o aro da minha roda.

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Nacala-a-Velha estava a poucos quilómetros, seguindo sempre pela mesma picada. Para chegar ao outro lado da baía, e consequentemente a Nacala-Porto, poderia optar pela via marítima ou por contornar a baia percorrendo os 30Kms de estrada asfaltada que ligava as duas povoações.

Mapa

Não desperdicei muitos segundos com estas matemáticas, pois assim que mirei Nacala-a-Velha no meu horizonte, senti uma tenebrosa pancada seca na roda traseira da bicicleta.

Era o aro a tocar no saibro solto da estrada, sinónimo de um pneu furado!

Depois de tantos quilómetros no meio do mato e depois de tantos problemas e soluções para manter a roda traseira no activo, eis uma benevolente gratificação… logo quando o final da etapa se encontrava à distância de um braço.

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Saí da bicicleta com pouca vontade para testar os 2 garfos “rebarbados”, que eram as únicas ferramentas que possuía para retirar o pneu do aro.

 

Para evitar ter um ataque de nervos ainda antes de qualquer tentativa de reparação, despendi alguns segundos para arejar, caminhando de um lado para o outro da estrada e aproveitando a aragem para baixar a minha temperatura cerebral.

Encontrava-me a poucos quilómetros de Nacala-a-Velha e se conseguisse chegar até à povoação, muito possivelmente poderia encontrar uma sombra para me dedicar às actividades oficinais, enquanto refrescava a boca com uma Coca-Cola gelada.

Acabei por encher o pneu com spray reparador de furos, na esperança que o dano fosse na periferia do mesmo e assim conseguisse prosseguir viagem, talvez mesmo até ao destino final.

Contudo a solução foi praticamente estéril, quanto a resultados positivos. Pois no curto troço até Nacala-a-Velha, fui obrigado a encostar por 3 vezes para atestar o pneu de ar.

Dei entrada em Nacala-a-Velha quando faltavam 15 minutos para as 12h00.

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Com o pneu semi-cheio, desci até à praça principal onde encontrei vários edifícios governamentais de baixa estatura. Procurei pelo habitual “café” que todas as praças à moda antiga possuem, com o intuito de comer alguma coisa antes de me devotar por completo ao pneu.

Porém apenas encontrei um pequeno estabelecimento, no extremo oposto da praça, o qual aparentava servir comida/bebidas aos seus clientes.

Depressa constatei que de “bar”, o estabelecimento só tinha o nome e o balcão.

Cada vez que pedia qualquer coisa para beber, o empregado tinha que ir a correr à loja de “conveniência” nas traseiras do bairro, para comprar a garrafa de Coca-Cola. E quando eu pedia uma sandes, fazia a mesma tarefa mas em direcção à padaria para comprar apenas um pão. Afinal de contas o estabelecimento funcionava como local de encontro entre amigos. Se os fregueses fossem muitos, então possivelmente o bar seria abastecido com alguns géneros.

Desmontei a roda sob o olhar atento de 2 jovens, que rapidamente se voluntariaram para me ajudar. Com a ajuda dos dois “bocados” de garfo, desmontámos o pneu do aro e procurámos o local exacto do furo.

DSCF6681 Os novatos aprendizes, insistiam em reparar a câmara-de-ar, envolvendo-se com dedicação à raspagem da goma através da ajuda de uma faca de cozinha.

Assim que a superfície da câmara-de-ar ficou pronta para receber a cola, esta foi aplicada e em seguida colámos o respectivo remendo.

 

Contudo o resultado fora o inesperado. Com tanta dedicação e arte no manejo da faca de cozinha, os meus colegas desferiram (sem saberem) um golpe de aproximadamente 4cm no outro lado da câmara-de-ar.

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Com Nacala do outro lado da baía, perguntava a mim mesmo que mais estaria para acontecer ao meu pneu e se este conseguiria chegar ao destino. Enquanto olhava para os miúdos embaraçados com o estrago provocado, procurava uma solução para o meu problema.

Possuía comigo apenas uma câmara-de-ar suplente e um par de remendos. Depois dos últimos acontecimentos, a única solução seria sem dúvida a utilização do meu último recurso de modo a prosseguir viagem quanto antes.

O tempo passava mais rápido que o próprio movimento de rotação da terra. Enquanto os meus ajudantes preparavam uma solução “africana” para o problema criado, o ponteiro dos minutos completava um giro de 360º.

DSCF6683 Os garotos haviam remediado a câmara-de-ar, colando um enorme bocado de borracha por cima do golpe

Desta vez o resultado foi o esperado após o primeiro teste. Assim que a pressão no interior da câmara aumentou, o remendo saltou fora.

Enquanto me preparava para retirar das malas a última câmara-de-ar e solucionar o problema de vez, vejo uma certa alegria na cara dos dois voluntários. Estes cumprimentavam alegremente outros miúdos que haviam chegado ao local para ver o branco que estava enrascado com um “furo”. Vinham acompanhados por um jovem vulcanizador a quem chamavam de “Mestre” e que possuía dotes de alfaiate.

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O “Mestre” estava ali para reparar o estrago causado pela desajeitada faca. Aplicou com destreza e perfeição alguns pontos de costura na zona do corte e logo de seguida reforçou a junta com outro remendo gigante, fabricado de um pedaço de câmara-de-ar velha.

Ao mesmo tempo que eu tentava baixar a minha tensão arterial, afinava o desviador traseiro sem querer envolver-me demasiado na solução “africana”, que uma simples substituição de câmara-de-ar resolveria em apenas alguns minutos.

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Quase na conclusão das operações de reparação, chegou à boleia numa pequena motorizada, o dono do estabelecimento. Sem grandes argumentos introdutórios cumprimentou-me dizendo:

-Quando partir, deixar essa máquina de fotos para mim…

A minha pulsação disparou e a tensão arterial que procurava controlar voltou a subir. As minhas tripas rodaram sobre elas mesmas e o cérebro cozeu em segundos. Deixei o que estava a fazer e enquanto limpava o óleo das mãos, esfregando uma na outra, proferi algumas verdades ao descabido indivíduo.

Enquanto os meus olhos cuspiam a minha irritação na direcção do dono do bar, os meus ouvidos captavam outros sons. Do meu lado direito uma anciã que não parava de me pedir dinheiro e à minha frente um jovem polícia a exigir-me o passaporte, ambos numa harmonizada sincronização. O sermão para o dono do estabelecimento acabou por ser dirigido a todas as personagens deste estranho cenário, menos para os miúdos que juntos dos meus joelhos não paravam de rir, dizendo-me ao mesmo tempo que passavam com os dedos no antebraço:

-Patrão… é da raça… negro é assim mesmo…

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Eram as 14h00 quando deu-se início a uma série de testes de robustez à solução do dito “Mestre”… Passou… Perdera pouco mais de 2 horas na reparação da câmara-de-ar. Estava na altura de fazer-me à estrada e tentar chegar a Nacala-Porto antes de o comércio fechar. Ainda tinha a esperança de encontrar uma oficina que pudesse solucionar meu aro traseiro, pois este piorava de condição a cada volta que dava em torno do seu eixo.

Arranquei a toda a velocidade com a intenção de percorrer os 30Kms restantes em menos de 2 horas, pois agora contava com uma estrada asfaltada e o vento baixara de intensidade.

Não foi necessário chegar à dezena de quilómetros percorridos, para sentir o pneu traseiro a vazar em menos de um segundo. Estava comprovado que a solução do “mestre”, não resultara e que o meu problema inicial continuava comigo.

Encostei a bicicleta nas ruínas de uma casa situada no limiar de uma pequena povoação. Em menos de 5 segundos contava com dezenas de pessoas de todas as idades à minha volta para assistirem ao acontecimento da tarde. A reparação do meu pneu.

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Os dois garfos que eu usava como “desmontas”, eram verdadeiramente úteis e funcionais. O principal problema estava ao nível do novo pneu de fabrico chinês, que era duro como um cepo e não facilitava em nada a desmontagem e montagem deste no aro.

Após a remoção da câmara-de-ar, verifiquei que os pontos de costura aplicados pelo “mestre” haviam cedido. Ainda antes de analisar qual a solução para o problema, o Francisco saí do meio da multidão e voluntaria-se como “alfaiate” para reparar a costura.

Mais uma vez assisti a toda uma demorada mas delicada operação de remoção da cola antiga, aplicação de pontos, colagem e secagem, enquanto refrescava a minha boca com mais uma Coca-Cola comprada no estabelecimento “O Peixe da Mamã”.

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Operação concluída, passámos para a fase de testes. Os pontos e o remendo improvisado resistiram ao primeiro teste, mas cederam ao segundo.

O Francisco preparava-se para voltar a atacar a câmara-de-ar com a navalha na mão e a agulha nos lábios. No entanto num vantajoso momento de lucidez, impus a minha teoria de aplicação da câmara nova. Acabavam assim os problemas com as costuras e colagens.

A partir desse momento, contava apenas com 2 pequenos remendos suplentes dentro da minha caixinha de plástico, onde guardava também o tubo da cola. Se a rachadela do aro resolvesse cortar novamente a câmara-de-ar, tinha grandes hipóteses de ficar apeado.

Passavam das 16h00 quando voltei novamente ao asfalto. Perdera 4 horas com a história do pneu, o que me impossibilitava de chegar a Nacala antes de o comércio fechar. Teria que ficar adiado para a manhã seguinte a procura da tão desejada oficina que pudesse reparar o meu aro traseiro e também a compra de material de consumo corrente para a bicicleta.

Uma hora depois de ter retomado a pedalada, dei entrada na cidade de Nacala.

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Por todo o lado havia camiões que transportavam mercadorias de e para o porto. A confusão de veículos ligeiros e pesados era total, causando-me um certo embaraço para me conseguir orientar e para não acabar prensado entre dois camiões.

As avenidas principais de entrada na cidade, estavam povoadas com os mais diversos estabelecimentos de apoio à actividade dos transportes. Desde o comerciante de “barraca” até aos grandes complexos industriais completamente apetrechados.

A cada metro percorrido, era obrigado a snifar uns quilos de monóxido de carbono emanados pelos tubos de escape dos muitos camiões que a todo o momento insistiam em circular nas minhas proximidades.

Começava a orbitar na minha cabeça uma estranha intenção de querer sair da cidade o mais breve possível e voltar à saudável vida do “campo”.

Após alguns quilómetros dedicados ao reconhecimento de Nacala e iluminado pelos remanescentes raios de luz solar, procurei a Pensão Bela Vista localizada na zona alta da cidade. A Pensão Bela Vista era o local sugerido por alguns habitantes de Nacala, como sendo aquela que reunia a melhor relação preço/qualidade, o que de facto viria a confirmar.

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Os 83Kms de Memba a Nacala, foram percorridos em 9h46, onde 4h14 haviam sido dedicados à arte da costura e da colagem de câmaras-de-ar.

A fobia por grandes cidades levava-me a ponderar a permanência ou não em Nacala até solucionar o problema da minha roda traseira. Todavia essa seria uma decisão a tomar nas primeiras horas da manhã seguinte, depois de dormir sobre o assunto.

O próximo destino seria a famosíssima Ilha de Moçambique, cerca de 100Kms a Sul de Nacala.

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